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UMA ESTÁTUA PARA HERODES

Quando a poetiza Natália Correia publicou a sua novela-ensaio-panfleto UMA ESTÁTUA PARA HERODES, a crítica pouco ou nada disse. Estávamos no tempo dos cravos, longe ainda da conta da florista, e era preciso pôr em dia o que sempre estivera na noite, os textos revolucionários. Não esqueçamos que, nessa altura, havia uma grande inflação de marxistas, eles eram tantos que até o PPD, agora PSD se arrogava de inspiração marxista. 

Ninguém, portanto, esperneou perante a provocação da poetiza &ndash ela preferia dizer-se poeta &ndash e o silêncio foi de chumbo, daquele de preservar as urnas.

Comprei o meu exemplar num tabuleiro de rua, daqueles onde se encontravam livros mais baratos que jornais &ndash estávamos em finais de 75 &ndash  e li-o de uma assentada, mal cheguei a casa. Parece que a obra não passou pelas livrarias, por qualquer problema de direitos autorais ou coisa assim, tornando-se, consequentemente, uma raridade que os alfarrabistas fazem valer por bom preço.

Uma coisa daquelas devia indispor um público dito maioritariamente católico, ou, mais friamente olhado, farisaicamente compassivo, que não engoliria com facilidade &ndash mesmo que não lesse e apenas lhe dissessem &ndash o que iria tomar como blasfémia um naturalmente incapaz de entender o encadear de parábolas desmistificadoras, dada a sua cultura medrosa de sacristia. Convenhamos que talvez agora estes dizeres sejam menos aplicáveis, as coisas mudaram muito e já ninguém tem a coragem de dizer que somos um país católico. Pdemos sê-lo por fora, em casamentos e baptizados, não por dentro.

Também os pequenos núcleos de um certo esoterismo português se arrepiariam com a forma áspera e contundente com que a Natália pega na mitologia das Três Idades, de Joaquim de Flora, e a subverte completamente. Subvertida se diga igualmente toda a crença de circunstância referente à Criança, seja no sentido de Imperador do Mundo, seja do modo comum como as crianças e a pretensa inocência são acreditadas.

Natália, de forma surreal e hermética, quis olhar a decadência da civilização judaico-cristã como fruto de uma revolta inconsequente contra o Pai, a que chamou criancismo.

Podíamos continuar a desenvolver esta vertente, mas preferimos fazer uma leitura um pouco lateral, tomada naturalmente a partir do acto genocida atribuído pela literatura cristã a Herodes. Essa matança, dizem os Evangelhos, tinha por objectivo matar Jesus. Mas falhou. Correu muito sangue, mas de Jesus nem uma gota.

Este falhanço permite-nos o comum abuso do se. O que teria acontecido se Herodes tivesse alcançado o seu objectivo?

Bom, esta nossa civilização, chamada ocidental, ter-se-ia desenvolvido de forma assaz diferente. Degolado Jesus, a sua falta seria preenchida por crenças e mitologias do mesmo padrão, por exemplo, o culto medo-romano de Mitra. Neste pressuposto, provavelmente nem o Islão viesse a surgir, não teria condições para nascer, dado derivar da Bíblia, naturalmente inconciliável com o Sol Invictus.

Especulemos um pouco mais. Suponhamos agora que Jesus escapava, do mesmo jeito que se diz que escapou, mas Paulo, andando por ali de bebé e por acaso, era vítima da degola. Ora, isto tornaria impossível a tal lenda da Estrada de Damasco, não teria a célebre visão de Cristo, pelo que não fundaria a religião que fundou, a cristã, no modo que se conhece hoje. Então, o cristianismo seria bem diferente, seguindo as concepções de Pedro e de Iago, afastando a hipótese de ser romano e ecuménico, não transpondo as suas características genéticas de mais uma seita judaica e, consequentemente, nenhum de nós o entenderia mais do que entendemos de fariseus, saduceus, essénios e outras.

 

 

Exposto isto, vamos assentar neste axioma, chamemos-lhe assim: todo o nosso percurso histórico tem sido condicionado de forma determinante por quantos Herodes nos têm vindo pela proa. A muitos deles erguemos estátuas, todos, metaforicamente falando, degolaram crianças, algumas mesmo por nascer, não para acabar com elas, mas por ciúmes da sua própria criancice, manifestada no brincar aos soldados e aos jogos de guerra.

Em todo o tempo, o povo louvava Herodes, aplaudia Barrabás e exigia que se crucificassem todos os incómodos, todos os agitadores. Os Cristos são crucificados porque o povo os exorciza os Herodes são entronizados porque o mesmo povo os invoca.

Há sempre um Herodes em cada esquina esperando por nós, e não se pense que os Herodes podem ser exterminados for de nós, nem se acredite que possa haver pílulas de purificação dos instintos. Nenhuma purificação nos chega de fora, de fora chegam apenas os brinquedos de enganar a nossa criancice. É por isso que os movimentos contra Herodes são ainda Herodes disfarçados à procura do trono e da coroa. Se vimos a Inquisição e o Nazismo (o negro e o vermelho) a agirem como Herodes multicéfalo, degolando a liberdade e cilindrando qualquer diversidade, não queiramos ser hipócritas brincando de anti-Herodes a esterilizar adultos, por virtude de qualquer bem supremo que inventássemos.

É no paradoxo de o anti-Herodes se ter de comportar como aquele que pretende exterminar que reside o nosso grande drama. Pesa sobre a humanidade uma enorme criancice: extinguirmo-nos, por falta de crucificados, num grande holocausto provocado pela birra da criança a quem roubaram o pião, ou porque a criança ficou à solta no laboratório da genética onde aprendeu a arrancar as asas às moscas.